Páginas

quinta-feira, 27 de março de 2008

Noiva em fuga


Ela não devia estar ali, não queria estar. Mal conhecia aquela figura alta e de expressão fechada que agora olhava fixamente para ela do altar. Sabia que estava fazendo aquilo porque era certo, mas não era a sua vontade. Sempre tão correta, fazia o que todos esperavam e julgavam de bom tom. Mas condenar toda uma vida só porque os outros achavam que ela devia não lhe parecia nada justo. Pensava na felicidade que estava proporcionando aos pais, no exemplo que seria para sua irmã. E por um minuto condenou - se egoísta e fraca. Mais alguns passos e a maior proximidade com seu futuro sem amor a fez estremecer. Amor! Tinha se condicionado a nem mesmo pensar nesta palavra, pois sabia que as lembranças não a deixariam continuar. Saira - se bem, até agora. Uma profusão de imagens percorreu sua mente, ela parou no meio do corredor. As pessoas a olharam assustadas, enquanto ela olhava nos olhos daquele homem parado alguns metros a sua frente.



- Por favor, desculpe - me! - sussurrou.



Ele simplesmente deviou o olhar. Abandonando o buquê, ela ergueu a saia do vestido e saiu correndo da igreja. O automóvel de seu pai estava parado logo na porta e ao avistá - lo ela já sabia o que fazer. Quando contornou a praça, antes de virar na rua lateral, viu seu pai amparar sua mãe que acabara de desmaiar. Ouviu pessoas gritarem seu nome em meio a palavras de reprovação. Apenas o ex - noivo parado no degrau mais alto da escadaria parecia não participar da indignação geral. Talvez agora, também ele pudesse ficar com quem verdadeiramente amava. Quando alcançou a estrada, sua consciência estava tranquila, ela sabia que tinha libertado duas almas.

Nenhum comentário: